segunda-feira, 8 de março de 2010

Para não dizer nada


Eu tenho conversado com as paredes.
Sim, tenho travado longos diálogos com os cômodos da casa vazia e desesperançosa.
Tenho debatido questões sérias em tom grave com minha sobrinha recém-nascida e é tão bonito vê-la concordar comigo com o olhar.
Tenha implorado às borboletas que moram debaixo do meu travesseiro que me deixem dormir um instante que seja para descansar a vista de que eu vi de ruim durante o dia.
Tenho rezado para meus pés e mãos e feito odes inenarráveis a eles.
Tenho agradecido todos os dias aos meus braços e pernas, cabeça, joelhos e cotovelos...
Tenho brigado a sério com meu peito e batido nele com o desespero de anos que leva consigo quem guardou as palavras por uma vida inteira.
Tenho cantado aos seres inanimados na esperança de vê-los dançar comigo ou entoar uma canção que seja com o vigor de uma ópera sem nome, mas de má fama.
Tenho discutido com Deus sobre o amor, a justiça, a misericórdia, a vida, a morte, as coisas do mundo, sobre as pessoas, sobre os erros...
Tenho escrito poemas às estrelas e marchinhas de carnaval à televisão.
E tendo dito tudo a tudo, decidi não dizer nada a ninguém que me pudesse entender.

8 comentários:

Steven disse...

Texto tocante Marilia... Me fez bem, como se alguém entendesse o que se passa quando estamos calados... Você traduziu esses momentos. Parabéns.

Steven disse...

Completando... Li escutando CLimbing Up The Walls do RAdiohead.

Thiago Lira disse...

esse foi um dos posts mais lindos que já li.

fabiana disse...

..e explodiu
e eu gritei e as paredes racharam ..

Mônica disse...

ow, se sua sobrinh ficar maluca eu vou dizer a mãe dela que a culpa é sua, viu??

PATATIVA MOOG disse...

Teu melhor texto, sem sombra de dúvida! Beijo.

Matemática em AçãOO. disse...

Simplesmente Belos esses versos Marília, tênues....penetrantes

Anne disse...

sempre evoluindo, maga...