sexta-feira, 12 de março de 2010

Tercetos para amores malfadados



I.
Veio com gosto de abismo
E de um velho ateu
Sorriu o pessimismo

II.
Veio travestido em luz
E em caminhada lenta
Hoje me deixa carregando a cruz

III.
E veio transbordando beijos
E minha agonia
Transformou em desejos

IV.
Veio com a cura pro meu mal
Vestiu as cores de um carnaval
Fantasiado de alegria vã

V.
Hoje eu digo com desenvoltura
melhor chorar a triste desventura
do que morrer sem mal amar ninguém.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Para não dizer nada


Eu tenho conversado com as paredes.
Sim, tenho travado longos diálogos com os cômodos da casa vazia e desesperançosa.
Tenho debatido questões sérias em tom grave com minha sobrinha recém-nascida e é tão bonito vê-la concordar comigo com o olhar.
Tenha implorado às borboletas que moram debaixo do meu travesseiro que me deixem dormir um instante que seja para descansar a vista de que eu vi de ruim durante o dia.
Tenho rezado para meus pés e mãos e feito odes inenarráveis a eles.
Tenho agradecido todos os dias aos meus braços e pernas, cabeça, joelhos e cotovelos...
Tenho brigado a sério com meu peito e batido nele com o desespero de anos que leva consigo quem guardou as palavras por uma vida inteira.
Tenho cantado aos seres inanimados na esperança de vê-los dançar comigo ou entoar uma canção que seja com o vigor de uma ópera sem nome, mas de má fama.
Tenho discutido com Deus sobre o amor, a justiça, a misericórdia, a vida, a morte, as coisas do mundo, sobre as pessoas, sobre os erros...
Tenho escrito poemas às estrelas e marchinhas de carnaval à televisão.
E tendo dito tudo a tudo, decidi não dizer nada a ninguém que me pudesse entender.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Top versões: "Versões masculinas (muito boas) para músicas Pop feminimas"


Uma nova seção para o blog: a Top versões que, como o próprio nome sugere, terá a pretensão de escolher as melhores versões/covers da música (é muita pretensão, viu?).
Mesmo que eu não goste muito de fazer post's sobre música, me veio do nada uma vontade estranha de falar sobre minhas versões favoritas. E isso é o necessário para que nasça um post...
Pois bem, sem mais delongas, aí estão:
As melhores versões masculinas para músicas Pop feminimas (na minha humilde opinião de blogueira falida e apaixonada por música).

A versão de Jamie Cullum para Don't stop the music
A música é da Rihanna, mas a versão de Jamie deu um certo glamour ao tocá-la acompanhado de seu inseparável piano.
Veja a original clicando aqui.



2º A versão do Cake para I will survive.

Interpretada originalmente pela diva Gloria Gaynor foi/é um hino da liberdade feminina (e um hino para o publico gay também). Uma música forte que ganhou uma belísima versão e um clipe hiper-power-mega machão (com direito a motorista de caminhão e tudo). Essa versão mostra que os homens também sobrevivem ao fim de relacionamentos e querem demonstrar isso através da música.
A original
A cópia


1º A versão do Franz Ferdinand para Womanizer

A original é da Britney Spears em sua volta nada triunfal ao mundo da música pop. Música fraquinha no voz fraquinha da cantora, mas uma pérola nas mãos certas...

A original

A cópia:


E então? O que acharam? Comentem.

quarta-feira, 3 de março de 2010

A vaidade das folhas de papel


A folha em branco é desesperadora. O enorme espaço cor de nuvem em dia ensolarado nada lembra aqueles dias que inspiram tranqüilidade. A folha grita, esperneia, rola no chão e pede encarecida e dramaticamente por uma palavra, uma frase ou pensamento qualquer. E se irrita quando o tempo passa e ela continua a se ver sem graça e espantosamente pálida
A palavra vaidosa vai aos poucos cambaleando tímida pela página tal qual um católico bêbado em dia de missa. Olha, pausa , reflete, duvida, trepida... Ali não quer entrar, não se acha adequada, não se acha bonita... E o que posso dizer se os vernáculos têm uma auto-estima tão baixa? Nem por esse tipo de problema. Não. As palavras são apenas seres que sabem seu lugar. Que sabem onde e quando devem estar.
Então começa um balé incansável das letras. Umas vêm fácil, dançando e seduzindo quem escreve. Outras vêm sem jeito, sem gosto, sem ritmo. Outras vêm forçosamente. Não querem sair do repouso divino do cérebro. Não querem realizar as inúmeras possibilidades de ligações...
O escritor trava com estas um guerra. E vai tira-las de lá à força. Com as armas perigosas da paciência, o autor adentra o território inimigo e tira de lá o que lhe é de direito. É uma guerra sem fim, coitado...
Depois de tirar as letras, de formar palavras, de uni-las em frases e períodos que formam pensamentos, de completar por fim a pagina, nosso herói sente que exala poder. A folha, antes triste, irradia alegria por ser agora preenchida pelas palavras de alguém e se sente única, o trunfo de seu rei escritor.
O autor porém, ao reler a página, não se sente satisfeito. Como pôde escrever tantas asneiras? Como pôde usar tantas palavras que em nada combinam com as outras? Ele olha a página, acaricia o queixo, amassa a folha e a joga no lixo ao lado da mesinha. Logo prepara uma nova página e trava mais uma batalha com ela.
Pobre folha... Jogada no lixo, relembra o que foi e reflete sobre o que poderia ter sido. Porém, não se deixa abalar. Para ela, melhor se tornar lixo nas frias mãos de um poeta depois de servi-lo do que ser eterna para um escritor vulgar.
Malditas folhas! Como são vaidosas...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O tamanho da minha insignificância (ou sobre o resto do mundo)


Você já parou para pensar na sua insignificância? De quão pequeno você é? Não? Eu o faço quase sempre. Tento desvendar a importância que tem 1 em meio a 7 bilhões de indivíduos. Indivíduos que nascem e morrem a cada segundo sem nem nos darmos conta ou sentirmos falta.
Quando ando pelas ruas nessa época de festas e vejo muitas pessoas que moram na mesma cidade que eu cruzando meu caminho, paro para pensar no que elas pensam, quais seus medos, desejos, inseguranças... Não consigo vê-los como números de série. Não são seres aleatórios. São seres humanos, possuem o mesmo pensamento estruturado que eu (pensamentos diferentes, obviamente, mas estruturados de maneira mui parecida). Seres que desejam, sonham...
Da mesma forma que eu reflito sobre o fato de que estes pensamentos não me dizem respeito, cerca de 7 bilhões de pessoas fazem, inconscientemente, o mesmo sobre mim. Isto é, percebem que o pensamento alheio não lhes importa. Talvez por isso tantas pessoas queiram ser famosas e espantar de vez esse fantasma da “inexistência para o outro”.
Minha existência é importante para um número bastante limitado de pessoas das quais algumas sobreviverão heroicamente a mim no dia em que eu virar lembrança. E eu não posso (salvo raríssimas exceções) evitar que elas morram ou que elas continuem me achando importante para elas, ou que me amem mesmo que eu faça inúmeras coisas erradas. Eu simplesmente não posso mover uma palha sobre o acaso, sobre o que os humanos decidiram chamar de destino, aquela entidade que rege o que os próprios homens são incapazes de reger.
Eu sou insignificante! Assumir isso não é um pecado. A nossa insignificância é um fato. Nossa fragilidade também. Somos limitados, incapazes... Assumir isso já é um salto para fora do abismo da ilusão cavado por nossa incrível arrogância e prepotência.
No entanto (e sempre haverá um “no entanto” no fim das coisas ruins para dar-nos a impressão de que algo bom virá depois delas), o que você fará para disfarçar a sua insignificância? Caridade? Um bom projeto para salvar seu mundo? Será famoso? Será eterno? Conte-me: O que você fará?

domingo, 31 de janeiro de 2010

Minha vida em caixas


Nossa vida cabe em caixas. Pensei assim quando comecei a empacotar minhas coisas para preservá-las da reforma do meu quarto. Fui por horas pegando as coisas uma a uma, sentindo-as, lembrando-as, jogando-as na caixa. Bilhetes de cinema, cartas de amigos, souvenirs, presentinhos, pelúcias todas dadas pelos meus amigos. Meus livros... tantos que comprei na ânsia de ter tempo e que agora levam poeira e não representam mais a opulência de seus autores. Meus CDs, DVD’s... Tudo é meio novo, tem coisas que nem imaginava encontrar de tão apagados de minha memória. Rabiscos, traços desalinhados no meu pensamento.
Muitas coisas são aparentemente inúteis, mas não dá para jogá-las fora não. Sim, é certo que a lembrança está lá e não se apagará tão fácil, por mais que mal traceje. Mas o objeto nos força mais a memória, aviva-nos o passado que sempre nos parece melhor e que cuja imagem ainda melhora com os anos. Odeio as traves da nostalgia em meus olhos, mas é bem o que acontece.
Coisas tão pequenas, tão baratas, tão singelas e me põem assim nessa saudade, nessa ânsia desenfreada por lembranças, cheiros, sensações...
A maioria do que tenho de guardar nas caixas são presentes e presentes são objetos que têm nome e que trazem consigo toda uma carga rememorativa. Alguns presentes se foram, outros casaram, tiveram filhos e a vida se encarregou de afastar de mim. Outros, ainda, nem falam mais comigo. Alguns presentes eu guardei só na memória, outros moram comigo, vivem comigo, saem comigo... Muitos deles eu amo, outros eu já amei e não me importa que já não amo, o que importa é que já foi amor.
E quando já estava tudo embalado, Fugi um pouco de mim e por vários minutos (incontáveis, eu diria) minha vida se reduziu a coisas, a meras coisas...
Com o quarto reformado e com a minha vida voltando às estantes, mesinhas, cantos de parede, a atmosfera dos desencontros da vida e dos objetos ainda reina sobre mim. As coisas têm uma áurea mágica. Um antigo professor meu diria que essa áurea se chama relações de produção... Ter se tornado um marxista desiludido deixou-o pouco poético.
Sim, minha vida coube perfeitamente em caixas, em três grandes caixas de papelão, jogadas a esmo no canto da sala. E aquilo me pôs pensativa por dias... É... talvez a vida não caiba em caixas. Da próxima vez, peço um container gigantesco ou então guardo minha vida tão somente em mim.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sobre quase todo mundo


Quase todas as mulheres querem o mesmo: beijos, atenção, alguém com quem dividir os maiores problemas e as coisas ridiculamente pequenas do dia-a-dia.
Alguém. Ter com quem assistir a um filme no domingo chuvoso. Alguém com quem rir das comédias... Alguém para fazer cafuné.
Não importa quantos diplomas ela tenha e em quantas línguas elas sabem afirmar categoricamente que é mentira tudo que escrevo aqui, as mulheres ainda precisam de alguém para conversar bobagens e coisas relevantes. Para falar sobre física quântica ou de como está gostoso o petisco do bar.
Também não importa se ela tem filhos. Amor de filho, já diria minha mãe, não substitui o calor de um outro amor carnal. Não importa o quanto elas trabalhem e afirmem que não têm tempo para pensar nessas coisas, elas estão pensando nessas coisas sim, no elevador, vendo a novela, enquanto almoçam, no Natal, Carnaval... Sim, elas pensam... e como pensam!
Todas sonham com os amores de uma comédia romântica. Um mocinho divertido que aparece do nada e renova suas vidas. Nem todas, é verdade. Algumas (acreditam que) já encontraram seus mocinhos por aí.
Todas sentem falta de abraços, de beijos de televisão e até das brigas infundadas cuja melhor parte é a reconciliação.
Não, não adianta baterem o pé, mulheres não são auto-suficientes. Sim, elas precisam de alguém para abrir o vidro de azeitona mesmo que elas consigam abrir sozinhas.
Talvez seja esta uma visão superficial dos fatos e de seres tão complexos quanto as mulheres, talvez seja aquela visão deturpada e excessivamente romântica... Ou quem sabe seja o óbvio.