
Eu já não caibo em conversa, em versos, em prosas. Eu me ajeito, me aperto, mas já não caibo também em risos, em músicas, em filmes B.
Nem em frases de efeito, nem em cinismo sem hora, nem na TV ligada às 4 da manhã. Eu não me encaixo em decassílabos, em redondilhas, em afinações, em tríades perfeitas. Não caibo no peito dos amigos, nem na memória dos inimigos, no bem querer de alguém. Não, eu não me acho em meu quarto, em meu espelho, em meu pensamento. Eu não me vejo em livros, em comerciais. Não me vejo nas propagandas alegres de cerveja, nem na mesa farta dos comerciais de margarina. Eu não caibo mais na minha cama, nas cadeiras da mesa, nas paredes da casa. Eu não me encaixo em sambas, boleros, tangos. Não me sinto na música clássica, nem num cochicho, nem no assobio de lavadeira... Em nenhuma canção.
Não me sinto destinatária de um riso de criança, de cartas de amor anônimas, de bilhetes não datados jogados no alpendre da minha janela. Eu já não vejo a janela, nem o alpendre, as letras das cartas, o riso.
Talvez eu não caiba mais em alegria desmedida, em Natal, Réveillon, Carnaval... Não me encaixo mais em carinhos, abraços, beijos...
E a única coisa triste de tudo isso: Eu já não caibo nos braços de minha mãe.